INSTITUTO JOHN GRAZ

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As boas maneiras do artista John Graz

Data: 07/03/2017 - Local: São Paulo

 

La forma que se ajusta al movimiento
no es prisión, sino piel del pensamiento.

Octavio Paz

 

Quando John Graz chega ao Brasil traz na bagagem o domínio de uma multiplicidade técnica do fazer artístico, a formação na Escola de Belas Artes de Genebra, os estudos de artes gráficas em Munique, as bolsas de estudo na Espanha, onde pinta suas Toledos dramáticas, de cores escuras, contornos fortes, síntese construtiva, seguindo passos e a influência de Ferdinand Hodler, mestre modernista suíço.

 

Hóspede futurista da Semana de 22, destacado entre Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Vicente do Rego Monteiro, ali introduzido pelo agitador-mor Oswald de Andrade e, dele, recebe as boas vindas:  “(que os pintores) incorporados ao nosso meio, à nossa vida, retirem dos recursos imensos do país, dos tesouros de cor, de luz, dos bastidores que o circundam, a arte nossa que afirme, ao lado do intenso trabalho material de construção de cidades, desbravamento de terras, uma manifestação superior de nacionalidade”.

 

Distante do ufanismo fácil, o Modernismo busca o conhecimento e a interpretação desta nova realidade, desta atmosfera nova que colocava São Paulo próxima à sociedade industrial internacional, conivente com a velocidade, a simultaneidade da informação, sua síntese. Aqui, as artes não acompanham esta evolução e a Semana, polêmica, foi a detonação necessária para desemperrar o país, na busca de uma sincronia moderna, universal, longe da herança francesa e sua Missão. Na Europa, a vanguarda abusa do fator construtivo para a derrocada do analógico e apoia-se no popular e no primitivo contra o falso aprimoramento academicista; no Brasil, a arte negra e indígena andavam à solta e exultavam em sensualidade e magia. Os anos 20 vêm, então, retratar a revolução nas artes, a ruptura com a linguagem arcaizante, a busca de expressões novas para a nova época. O anarquismo da nova Descoberta do Brasil. Ao mesmo tempo, o país caminha para a efervescência político-social do final desta década, que culmina com a revolução de 30, o tenentismo, o desenvolvimento do país, a ascensão da burguesia, a implantação do capitalismo.

 

Surge o que Antonio Candido chama de pré-consciência pessimista do subdesenvolvimento brasileiro: nos anos 30, ocorre a aproximação entre arte e ideologia; a arte capta para si a função de reformar a realidade e esquece os ensinamentos modernistas. É a arte querendo fazer a revolução: a linguagem retoma a rotina e a ilusão e toma de assalto os problemas sociais, aparentando certa generosidade culta, implantada, de incerto modo, pelo estado ditatorial. Afasta-se da radicalização estética anteriormente adotada, quando a arte desnuda seus procedimentos e, criticamente, desnuda a sociedade na qual se insere, arte que instaura o otimismo e a bandeira da carnavalização de toda uma consciência nacional, revificadora. Como queria Oswald de Andrade, é este país de opostos tão evidentes que encanta e estimula o recém-chegado visitante, fazendo-o sagaz repórter da nossa iconografia geográfica e humana e portador desta bandeira, saudável e perene; ágil, introduz-se nos movimentos e agrupamentos artísticos (Escola de Paris, Grupo 7), investiga tendências (arte-deco), participa de salões (SPAM, CAM).

 

Nos anos 40, a consolidação da representação modernista, a afirmação institucional, com a fundação dos principais museus nacionais – antecipados em 1937, pelo Museu Nacional de uma consciência profissional artística; John Graz, então, coloca o quadro na parede das casas burguesas paulistas, de modo resoluto, funcional, consciente, como aponta Mário Pedrosa (e Le Corbusier) em sua tese sobre a funcionalidade da arte moderna na contemplação decorativa da arquitetura contemporânea. São assim os murais e relevos residenciais, levianamente destruídos, em nome do “progresso” urbano; sua pintura, correspondente direto do figurativismo narrativo modernista, revela, segundo Pietro Maria Bardi, a despreocupação em trabalhar modelos ou empenhos, a favor de uma paisagem luminosa com figuras em movimento; também Geraldo Ferraz descobre nela ‘um espetáculo mutável’. O artista afirma venerar o que é vivo, o que respira e movimenta; nesta necessidade de animar a forma, felizmente captada, a pintura atinge a plenitude analógica, exatamente porque contraria a procura da perfeição analógica. Natureza derramada a cada quadro.

 

É o motivo que estimula o artista: seus personagens raramente são surpreendidos em pose: os índios caçam, pescam, os cavalos galopam ou lutam, os meninos e as mulheres trabalham, os homens guerreiam, navegam ou agem, sempre e simplesmente; suas figuras temem deixar de ser tão dramáticas, tão humanas. São personagens que merecem o que sonham.

 

Cuida com carinho da terra adotada e do seu povo; faz arte com o povo, trazendo-o, sentido lato, para a arte; faz arte com a exigência única da sua necessidade formal e criadora, jamais por solicitações externas; de novo, Mário Pedrosa é quem afirma: a solicitação artística existe ou se faz sentir a despeito da sociedade, o que torna o artista um ser individualista, só em sua multitude, trabalhando mudanças e retomadas constantes e atingindo assim a consciência dos seus impulsos, novos, e a solidariedade humana.

 

O universo feminino de John Graz é amplo, quer alcançar as mulheres e alçá-las em terno, eterno abraço; viajante perspicaz, representa-as em suas etnias, cores e especificidade; e estas representações também são amplas: as mulheres de John Graz passeiam pelos desenhos e pelas anotações rápidas, grafites, azuis, em pequenos cadernos de viagens. Integrantes da paisagem brasileira, tão modernas, quase sempre são trabalhadoras, cerâmica, à cozinha, às crianças, à colheita do café, uva; às vezes, são surpreendidas, coloridas, sob a sombra tênue das suas sombrinhas e flutuam entre rio e papel.

 

Seduzido e sedutor, John Graz leva-nos a rever a fatura do desenho em si, presença maior desta exposição; incorpora o universo brasilianista que, com pouca retórica, organiza e apresenta; um reinventar contínuo do urbano e da natureza, intensamente sentido; sinestesia do fazer, seus desenhos relacionam-se não à criação, mas ao ato de criar: saltos diretos da mão, visam vencer o desafio de representar a atmosfera nova, vista/vivida, e a medida tropical dos seres e das coisas.

 

É no desenho, de maior carga afetiva, que o lirismo essencial busca a representação, só passível através do trabalho intenso e da produção de esboços, estudos, anotações rápidas, que se completam na obra acabada; ou ainda, na procura de cores iminentes, puras, referentes aos fatos da terra nova, que lhe agradece e reitera o tratamento recebido. Paisagem aberta que nasce a cada olhar. É esta relação total e poética com a pátria escolhida que transforma este mundo novo em fragmentos coloridos sensíveis, ora pássaros, ora peixes, ora plantas e desvenda-lhes o segredo de ser pássaro, peixe, planta…

 

Seu desenho, notação elaborada com simplicidade, é um verdadeiro resgate da Alegria em cores e riscos. A maneira de ver é semelhante à maneira de ser. Em sua biografia, consta ser um homem de boas maneiras. O homem de boas maneiras age por uma lei interna, bebe as águas da Fonte, faz fugir os malefícios, harmoniza o Olhar.

 

Paz na terra aos homens de boas maneiras.

 

Sergio Pizoli

Curador

*texto do catálogo da exposição O Brasil de John Graz (Caixa Cultural, de 23 de janeiro a 28 de fevereiro de 2010)