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As casas de John Graz: Série revela projetos desenvolvidos

Data: 19/04/2017 - Local: São Paulo

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John Graz; Sala de toilette da residência de Antonieta Penteado da Silva Prado; c. 1925.

 
Essa é uma série de quatro artigos e tem como objetivo apresentar projetos de decoração de interiores, uma das muitas faces da obra do artista suíço radicado no Brasil, John Graz. Quando chegou ao país, em 1920, ele realizou uma exposição de artes plásticas no Salão do Cinema Nacional, onde conheceu Oswald de Andrade, que adquiriu uma tela do artista e o convidou para fazer parte do grupo modernista. Um dos pintores “mais interessante da Semana de Arte Moderna de 1922”, segundo Aracy A. Amaral, professora titular da FAU/USP, John Graz foi também um dos precursores do design de interiores no país. Responsável por pensar aspectos decorativos das casas de várias personalidades paulistanas, seu trabalho chama atenção pela qualidade técnica e inovação da combinação entre móveis, afrescos, vitrais e luminárias.
 
Nesse primeiro artigo serão apresentadas fotografias de dois projetos executados por John Graz e posteriormente registrados, a pedido do artista, pelo fotógrafo italiano que viveu no Brasil, Hugo Zanelli. Trata-se das residências de Caio Prado Júnior e Roberto Simonsen. As fotografias são registros importantes que garantem acesso à memória desses espaços, já que boa parte das casas em que John Graz trabalhou não existe mais, devido à verticalização da cidade. Essas imagens fazem parte do acervo do Instituto John Graz.
 
A residência de Caio Prado Júnior e Antonieta Penteado da Silva Prado
 
De acordo com anotações de John Graz, Caio Prado Júnior e Antonieta Penteado da Silva Prado, sua esposa, foram muito provavelmente um dos primeiros clientes do artista, alguns anos antes da inauguração de sua loja, “John Graz Decorações”, em 1930. O casal pertencia a famílias com ampla tradição e participação econômica no estado, seja por meio do comércio, cultivo de terras, indústria, pela política ou até mesmo por seu incentivo à cultura.
 
A revista semanal “A Cigarra”, dirigida por Guilherme de Almeida e Menotti Del Picchia, apresentou um artigo sobre essa casa na edição n. 445, de julho de 1933. De acordo com essa publicação, a residência do casal Silva Prado era um dos exemplos do que existia de mais moderno na cidade. No entanto, nesse momento histórico, ainda havia certa resistência em relação à arquitetura moderna. Um bom exemplo desse contexto é a residência de Olívia Guedes Penteado, personalidade influente e importante mecenas da arte em São Paulo, que apesar de sua proximidade com os modernistas, não adequou o interior de sua casa com os preceitos desse movimento, mas fez um pavilhão anexo, no fundo, onde abrigava tanto móveis modernos quanto obras de artistas como Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Antonio Gomide, Victor Brecheret, Regina Graz, dentre outros.
 
A ideia de que era importante dar abertura para projetos modernos estava em voga, mas os interiores das casas nobres ainda resistiam a essas mudanças. Por outro lado, o projeto feito para os Prado demonstra um aceno para a inserção de aspectos modernos dentro da casa, já que um ou outro cômodo da área íntima foram decorados de acordo com a matriz modernista. As outras partes, lugares de recepção das visitas e convívio comum, ainda resistiam às mudanças.

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John Graz; decoração para Sala de Banho da residência de Caio Prado.

 
Segundo a pesquisadora Anna Maria Affonso dos Santos, comentando a decoração da Sala de Banho da residência de Caio Prado em sua dissertação de mestrado pela FAU/USP, John Graz: o arquiteto de interiores:
 
“Esta sala de banho é com certeza um ambiente marcado pela abstração geométrica, onde o racionalismo do projeto, caracterizado pelo vocabulário geométrico de formas simples, mescla-se aos elementos decorativos luxuosos produzidos com materiais sofisticados, que fornecerão ao ambiente a sensação de simplicidade e ao mesmo tempo de luxo e elegância. Supõe-se que a escolha por essa estética moderna tenha ocorrido por se tratar de alas destinadas ao uso particular do proprietário e que, portanto, deveriam ser confortáveis e funcionais, mas ao mesmo tempo poderiam inovar sem causar constrangimento aos visitantes”. (p.31)
 
Nesse exemplo, nós podemos observar a engenhosidade da composição realizada por John Graz. Cada mínimo detalhe foi pensado pelo artista fornecendo harmonia entre os elementos empregados. Nota-se, na fotografia abaixo, a sofisticação do desenho dessa maçaneta em seus detalhes retilíneos, com uma espécie de padrão. No entanto, o design bem elaborado desse objeto não interfere na sua funcionalidade, aparentemente simples e confortável.

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John Graz; Maçaneta da Sala de toilette da residência de Antonieta Penteado da Silva Prado.

 
A residência de Roberto Simonsen
 
Os cômodos íntimos de algumas casas paulistanas já estavam sinalizando uma transformação moderna, como assinalamos, mas os espaços de encontro e sociabilidade ainda resistiam, mesmo que por pouco tempo. A cautela na utilização de um projeto inteiramente moderno também está presente na residência da família de Roberto Simonsen, importante industrial, administrador, empresário, escritor e político – ele foi deputado e senador.
 
A diferença desse projeto para o da família Silva Prado é que os cômodos utilizados para receber visitas ganharam aspectos modernos, isso tudo ainda por volta de 1925. John Graz foi responsável por decorar alguns espaços desta residência, como a Sala de Estar, Living (Sala de Visitas), pintura de murais com temática colonial na biblioteca da família, além do jardim. Segundo interpretação da pesquisadora Anna Maria Affonso:
 
“Esse ambiente, assim como a sala de estar, também é marcado pela simplicidade formal e ao mesmo tempo pelo refinamento. As linhas fortes nesse interior produzem dinamismo enquanto a sensação de leveza é conseguida através do pouco uso de ornamentos, o que de certa forma leva a pensar numa visão não materialista do design. Embora John Graz distribua poucos móveis em um espaço tão amplo, escolhe peças sofisticadas e incomuns, pertencentes a um vocabulário mais intelectualizado, como é o caso da luminária que aparece no primeiro plano, da poltrona que aparece à esquerda, ou mesmo da ferragem de metal presente na porta. São peças funcionais, porém que causam certa estranheza ao visitante, seja pela combinação de materiais inusitados, seja pela proporção exagerada, ou mesmo pelo formato diferenciado”. (p.68) [análise da primeira imagem abaixo]

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John Graz; Living da residência de Roberto Simonsen; c. 1925.

 

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John Graz; Sala de estar da residência de Roberto Simonsen; c. 1925.

 
Paralelo a esses projetos, o arquiteto Gregori Warchavchik passou a construir suas casas inteiramente modernistas. Agora, não mais um ou outro espaço da residência ganhava aspectos modernos, senão o seu todo. Ao longo dos anos, um número maior de clientes passou a solicitar projetos modernos, requisitando constantemente as criações de John Graz. Suas soluções formais continuaram muito apuradas, carregando elementos em voga no mundo europeu, como a Art Déco, além de aspectos da Escola Bauhaus. No próximo artigo vamos apresentar dois projetos: a casa de Leme Fonseca, além da residência de Célia Carvalho.
 
Referências

SANTOS, Anna Maria Affonso dos. John Graz: o arquiteto de interiores. 2008. Dissertação (Mestrado em História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008. doi:10.11606/D.16.2008.tde-03032010-112258. Acesso em: 2017-04-19.
DECORAÇÕES. Revista A Cigarra. 1933. São Paulo, Sociedade Anônima “A Cigarra”, ano XX, n. 444, 22 de julho de 1933.

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